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Colunista: Luis Felipe

Todos apostamos em alguma coisa

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Há algumas semanas, enquanto sorvia o sagrado cafezinho da manhã com um pão francês bem novinho, fui surpreendido por uma notícia no celular: um conhecido, pessoa muito querida, envolvera-se com jogos de azar. Quando digo envolvido, digo envolvido mesmo, até os gargalos.

A dívida ultrapassava os cento e vinte mil reais. O vício já havia engolido dois carros populares usados e alguns “pequenos” empréstimos contraídos junto a agiotas. Fiquei surpreso ao saber de quem se tratava. Meu conhecido parece um cara equilibrado, um rapaz boa-pinta, jovem, de academia. Desses que tomam café da manhã com suco de beterraba, jantam iogurte natural com quinoa e saem com as mulheres mais bonitas do estado. Em síntese, alguém que não dava sinal algum de ser um viciado. A surpresa maior, o montante da dívida fora contraído por causa do Jogo do Tigrinho.

Minha reação não foi diferente, imagino eu, da de qualquer pessoa que tenha lido uma notícia parecida. Fui do estarrecimento à pena. Daí saltei aos questionamentos e aos inevitáveis julgamentos morais. Como alguém tão jovem e aparentemente lúcido cai numa dessas? Ainda mais no Jogo do Tigrinho. Um artifício tão trivial que custa acreditar que ainda haja quem embarque nisso.

Passados alguns dias, lancei a notícia à minha caixinha de esquecimentos das coisas irrelevantes. Afinal, um conhecido nem chega a ser parente, nem chega a ser amigo. Segui lamentando o ocorrido, embora, no íntimo, comemorasse o fato de aquilo acontecer com alguém distante de mim.

Foi apenas na semana passada, enquanto fazia uma limpa nos arquivos do celular, que voltei a pensar no assunto. Mais especificamente enquanto decidia, entre as 13.560 fotos e os 634 vídeos arquivados na galeria, quais arquivos excluir. No meio daquele volume continental de registros inúteis, dei-me conta do quanto estava sendo egoísta. Não poderia ajudá-lo com dinheiro, de forma alguma. Mas posso compreendê-lo. Mais do que isso: devo compreendê-lo.

É claro que não comparo uma galeria lotada de fotografias ou um cafezinho depois do almoço a uma dívida de cento e vinte mil reais. As consequências são incomparáveis. A lógica, porém, é a mesma, a dificuldade que temos de abrir mão daquilo que oferece um pequeno conforto imediato. Porque eu também me apego ao celular muito mais do que deveria. Também passo horas diante da tela. Também prometo que vou abandonar o doce depois do jantar e, na noite seguinte, repito o ritual. Talvez os nossos vícios não tenham o mesmo preço. Mas todos eles começam do mesmo jeito. Convencendo-nos de que temos o controle.

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