Uma amiga minha tinha um sonho: ser mãe. Desde adolescente, ela já falava nisso. Antes mesmo de delirar atrás do príncipe encantado ou de imaginar que seria médica, veterinária ou jornalista. Acredito que queria ser mãe antes mesmo de ser adolescente.
Veio a vida adulta; ela namorou, casou, estudou e adquiriu casa própria. Até aí, tudo bem. O que ela não contava era que, em um dos seus ovários, se desenvolveria um cisto enorme, e isso a impediria de ser mãe biológica para sempre. Ela sofreu muito, como não poderia ser diferente. Mas ali, em meio àquele momento de luto, tomou uma decisão junto ao marido: adotariam uma criança.
Passados os trâmites naturais e burocráticos da adoção, eis que conseguiram um menino de nove meses. Ambos ficaram encantados com a criança; ele parecia extremamente saudável, e eles ainda eram jovens. Poderiam aproveitar muito a vida em família, agora a três.
O tempo passou, o menino fez três anos. Mas o futuro dos adultos é um senhor inquieto e, não raras vezes, sorrateiro. Surgiu neles o desejo de adotar uma menina. Venceram novamente os processos de adoção e acolheram uma menina — dessa vez mais velha, de seis anos — para ficar com idade próxima a do irmão e lhe fazer companhia.
Avancemos no tempo. Chegamos ao ano de 2026. Minha amiga — antes de continuar e contar como essa história “acaba” — está feliz com os seus dois filhos. Sente-se “realizada como mãe”, nas palavras dela.
Os fatos, porém, chamam minha atenção. Seu filho, logo após completar três anos, foi diagnosticado com autismo grau 2, o que dificulta gravemente sua interação social, inclusive por meio da fala. Logo em seguida, foi a vez da filha, que, ao ingressar na educação básica, recebeu o laudo de deficiência intelectual moderada.
Minha amiga e seu marido seguem casados. Trabalham bastante e cuidam dos filhos com carinho, sem negligenciar os acompanhamentos médicos e provendo amor.
Dias atrás, tomei a liberdade de perguntar a ela se não tinha medo do futuro, pois, à medida que os filhos crescem — estão prestes a alcançar a vida adulta —, vejo minha amiga cada vez mais cansada e seu marido doente (foi acometido por dois infartos em um ano). Ela respondeu que sim, hoje sente que pode se arrepender. Não por amar menos os filhos, mas por imaginar que talvez não consiga suprir suas demandas na vida adulta.
Após isso, pensei em mim. Pensei em você, que lê esta crônica. Quais são os nossos sonhos? Ao tê-los, estamos atentos ao preço que pagaremos por eles? Aliás, é possível existir sonho isento de ônus? Sinceramente, acho que não. Mas ainda acho melhor ter um sonho. Mais vale uma vida sonhada do que uma vida não vivida. Enfim, vive-se também de ilusão.