Há quatro anos, escrevi nessa mesma coluna, prevendo uma vitória brasileira. A canarinho fracassou. Eu fracassei no meu prognóstico. Tudo certo. Nunca fui bom em apostas esportivas. Esse ano vou fazer diferente; nada de previsões. Vou apenas torcer. Não para Ancelotti, Vinícius Júnior ou Neymar. Torço pela instituição, torço pela felicidade do povo. Grande parte dele. Caso não vença, estará tudo ótimo também.
E talvez seja justamente aí que esteja a força da seleção brasileira. Ela sobrevive até mesmo quando perde. Nenhum clube do mundo consegue mobilizar tanta gente ao mesmo tempo. Nenhuma outra camisa carrega tantas histórias. Algumas gloriosas. Outras nem tanto.
A mais famosa delas talvez seja a de 1950. O Brasil recebeu a Copa, construiu o maior estádio do mundo e chegou à decisão precisando apenas de um empate contra o Uruguai. Perdeu, diante de um inacreditável público de 200 mil pessoas! O chamado Maracanaço transformou uma festa em luto nacional. Ainda hoje, mais de setenta anos depois, o episódio continua sendo lembrado como uma das maiores dores da história do esporte brasileiro.
Curiosamente, a derrota não enfraqueceu a seleção. Fez o contrário. A tragédia ajudou a construir a sua mística do futebol no país. O Brasil aprendeu a sofrer junto antes de aprender a vencer junto. Quando os títulos vieram, especialmente a partir de 1958, eles carregavam também a memória daquela ferida aberta no Maracanã.
Talvez seja por isso que a Copa do Mundo continue sendo diferente de qualquer outro evento esportivo. Ela nos oferece algo raro, a possibilidade de sentir a mesma emoção que milhões de desconhecidos estão sentindo naquele exato instante. Seja alegria, nervosismo ou decepção. No fim das contas, a seleção é feita de poucas vitórias e muitas derrotas.
Mas as vitórias passam rápido; as derrotas ficam. Talvez porque a alegria seja efêmera por natureza. Ela explode, ocupa ruas, estampa manchetes e, pouco depois, dá lugar ao próximo acontecimento. A derrota, não. Ela se fica na memória coletiva, transforma-se em história, vira assunto de pais para filhos e atravessa gerações. O brasileiro talvez se lembre mais do Maracanaço de 1950 e do 7 a 1 de 2014 do que de muitos dos títulos que conquistou. E, paradoxalmente, é dessa mistura que nasce a grandeza da seleção.