Como de praxe, o professor percorre os olhos pela sala vazia após o último período. Nesse dia, porém, decide caminhar pela sala, catando bolinhas de papel, restos de apontador e outros lixos. Eis que numa das classes vê um estojo esquecido. A princípio não parece ser diferente de qualquer outro estojo de um estudante do oitavo ano. É fabricado com algum material que simula jeans e tem no seu interior poucos (porém pesados) materiais: quem sabe duas ou três canetas, dois lápis, uma borracha e um apontador de metal.
Para diante daquele achado. Pensa, como todo descobridor, em desvendá-lo; num primeiro momento, ver se há algo além do material escolar. Mas hesita diante da atitude que lhe parece indelicada, indecorosa. Como se estivesse prestes a violar uma carta que não é sua. Portanto, recolhe-o e o deposita dentro da mochila, junto com o seu material de aula: livros didáticos, uma pasta cheia de folhas diversas e um estojo pesado, repleto de canetas de todas as cores, lápis, borrachas, clipes e tudo o mais.
Quando chega até a parada para tomar o ônibus é que percebe o erro, aquele estojo parece um peso fútil e morto ali, misturado a tantos outros materiais. Poderia tê-lo esquecido na escola, no setor dos achados e perdidos. Agora, no entanto, é tarde demais. O ônibus desponta na esquina. Voltar por um simples objeto seria um preciosismo cansativo.
Chega em casa e larga a mochila em um canto, como se, soltando-a, livrasse-se de toda a carga daquele dia. Vê uma roupa leve, calça os chinelos de dedo e toma um banho morno demorado. Enquanto a água escorre sobre os seus ombros e uma porção generosa de espuma teima em escoar pelo ralo, pensa sobre o seu dia. Um dia normal. Surpreendeu uma aluna falando que o achava “o pior professor do mundo” e fingiu não escutar. Em outra aula, conteve-se o que pôde até explodir sua fúria em xingamentos, inclusive para quem não precisava ouvir. Por fim, veio a última aula, a mais calma. Talvez porque os alunos estivessem tão cansados que incomodar nem fizesse sentido.
Então, por acaso, quando recorda de arrumar as coisas para o dia seguinte, esbarra no estojo esquecido no fundo da mochila. Pensa em ignorá-lo, mas uma curiosidade — aliás, mais um desejo que uma curiosidade — o atinge. Examina o exterior do objeto, pesa-o mais uma vez. Agora, longe da escola, parece mais leve, com ainda menos conteúdo. Calcula o erro, talvez ali tenha apenas uma caneta, um lápis e uma borracha, quando muito. Leva a mão para abrir o zíper quando ouve celular tocar. Atende-o; fora um engano. Ao desligar, já não recorda a tarefa anterior. Vai para a cama cedo, está cansado e dorme em menos de cinco minutos. Encontrará o estojo semanas depois, abandonado no fundo da mochila.